Agridoce

Sobre

Minha foto
"you can tell from the scars on my arms and cracks in my hips and the dents in my car and the blisters on my lips that i'm not the carefullest of girls"

Glory Box

8.6.17

carta ao medo

você aperta meu estômago e me faz ter medo de ter medo de ter medo e quase vomitar, mas não vomito porque tenho medo de vomitar e o medo multiplica, você se multiplica. mil  de você em forma de nada, pois já é o meu corpo, a pressão no meu peito, a garrafa de vinho que eu tomo me enganando que é porque combina com macarrão. não é porra nenhuma. é porque eu quero te embebedar pra você dormir e eu ficar em paz, eu poder sorrir. em dias normais eu te puxo, repuxo, passo pra minha mente, elaboro pensamentos enquanto você grita dentro de mim que você existe, que eu vou ser assaltada, estuprada, que me olham estranho porque minha cara é feia, meu braço é gordo, que eu não consigo ter minha própria grana, que todo mundo vê essa farsa que eu sou. você diz que eu tenho que te ter e eu aceito. eu desisto de empurrar pra fora e aí dói. é esofagite, mas é medo também. é gastrite, mas é medo também. é ressaca com medo, que dupla perfeita pro começo do fim.
sinceramente eu quero que você vá tomar no meio do seu cu. vai se foder. mas vai se foder pra caralho mesmo, vai pra puta que te pariu, vai ser cuzão assim lá na casa do caralho seu filho de uma puta. eu odeio você. eu vou acabar com você, eu vou te bater pra caralho, eu vou te empurrar no chão do banheiro e chutar você enquanto eu grito. eu vou te espremer até você passar entre os meus dedos e virar geléia no chão. e aí eu vou cuspir em você, mandar você se limpar e bater a porta. tudo isso pra você entender quem é que manda nessa porra.

25.5.17

Entramos numa conversa filosófica e era como se a sala estivesse flutuando no espaço. As palavras voando, os olhos brilhando, a mente dela abrindo em mil estrelas e eu sendo a fonte, a fountain of blood in the shape of a girl. A troca foi vista, ela me agradeceu. Na busca do que é felicidade eu a fiz questionar todos os atos durante o dia, todos os olhares para plantas vivas e mortas, pessoas vivas e mortas, café sem açúcar, tapete remendado, colar de pessoa adulta. Ficamos em silêncio por quinze segundos. Os remédios me trazem essa calma de gente velha que te faz esperar para poder concluir o raciocínio. Depois disso eu disse que não sabia e ela disse o mesmo. A sala parou. Acho que é isso. É sobre não ligar pra tristeza. Sempre achei que fosse sumir quando me sentisse em paz. E paz não quer dizer felicidade. Paz é ausência de dor (ou o esconderijo dela). Eu disse que o mundo é cinza e que não dói mais. Eu disse que sei a diferença entre felicidade e euforia. Eu disse que não me incomoda e ficou por isso mesmo.

8.5.17

03:33

Numa noite dessas, entre vários sonhos colados porém distintos, eu sonhei que pegava um ônibus sozinha pra te visitar. Chegando lá pegava um moto-táxi. Incrivelmente eu sabia o caminho. O legal de sonhar é isso, é saber. Te encontrei, mas não ficamos nervosos. Deixo isso claro porque sei da nossa falta de habilidade social. Foi tranquilo e engraçado. Dois maços de cigarros fumados e eu te contando que li que gatos de rua vivem aproximadamente três anos e gatos domésticos têm uma estimativa de quinze anos. Então eu dizia "mas quem disse que eles querem viver pra caralho?" e você ria. Você ria e dizia várias vezes que a vida é uma merda. Coitados dos gatos domésticos. A gente ria tanto. Acho que somos gatos de rua.

5.4.17

3.4.17

pena é diferente de compaixão. cresci num ambiente onde a pena estava sempre presente. pena e culpa. pela criança na rua, pelo tio doente, pela velha na TV que não tinha família. meus pais amam ter pena. nos restaurantes têm pena do garçom. no semáforo têm pena do malabarista. em casa têm pena de mim, dos meus sobrinhos, da nossa solidão. virei adulta e segui seus passos. pena de idosos, é isso que eu tenho. com raciocínio percebi que era errado. ter pena é se julgar melhor que o outro. é julgar o outro como incapaz. isso é feio. hoje não sinto do jeito que sentia antes. a inteligência emocional me ajuda. nessa fase da minha vida sinto a energia da pena vindo até mim. isso me arrasa. fui subestimada pelo meu pai a minha vida toda. subestimada com amor. "ela não consegue" era a frase que eu mais escutava. ter entrado na faculdade e ter tirado a carteira de motorista são meus troféus. mas a frase fez efeito quanto a andar na rua sozinha, me virar com endereços, saber lidar com as pessoas. muitas vezes fazem graça sobre isso comigo. eu não culpo ninguém, a gente nunca sabe o que o outro passou. então eu sorrio. mas quando a pena vem até mim... hoje, nessa fase, quando a pena vem até mim eu sinto raiva. porque ela vem da mesma maneira que eu era subestimada. com disfarces de preocupação e amor. não anulo que exista, confio na boa intenção, mas conheço o funcionamento do ser humano. eu detesto sentir raiva. ela não me traz nada de bom. o ódio me faz andar mais rápido, perder o medo. a raiva só corrói, faz doer o estômago. mas eu não vou sentir pena de mim.

15.3.17

umbigo

as pessoas não estão interessadas em dividir nada. elas querem falar delas. e quando você abre a boca pra falar de si, elas te cortam, elas olham pro lado, elas dão um exemplo com a vida delas e falam delas delas delas delas. o mundo autocentrado. autocentrado pra caralho o mundo. esqueço isso e me disponho, mas tenho meus limites. uso os recursos que tenho, pois sou humana e também tenho isso. evito encher os ouvidos. evito a vibração ruim. nessas que me ferro, mas tudo bem. dançando entre o isolamento e a vontade de ajudar todos. entre palavras de conforto e a irritação. vou sendo como posso.

6.3.17

stoned moon

no chuveiro, depois de fumar um, achei que teria muita coisa a dizer. achei que teria talento. bebi água pensando no motivo do branco na minha mente. porque quando a água caía lá do chuveiro, parecendo levar 5 segundos cada pingo, minha cabeça se enchia de ideias. e agora quando tomo a água filtrada ela desce como uma borracha me apagando. eu estou começando a acreditar nessa tal de lua em gêmeos.